[Arca Universal]
Grandes Nomes – João Ferreira de Almeida

Ele enxergou os absurdos da Igreja Católica e lutou para traduzir a Bíblia para o português, tornando-a acessível para o povo
Por Marcelo Cypriano
marcelo.cypriano@arcauniversal.com
João Ferreira de Almeida é um nome bastante comum em países cuja língua é o português. Também é bem conhecido por cristãos desses países, pois figura na capa e na primeira página de muitas Bíblias por um fato muito simples: foi ele o responsável por passar a Palavra para a língua portuguesa, ainda no século 17.
De nome João Ferreira Annes d’Almeida, nasceu na até hoje bem pequena cidade de Torre de Tavares,Portugal, em 1628. De pais católicos, ficou órfão ainda criança, e teve de ir para Lisboa, capital de seu país, morar com um tio, membro de uma ordem católica. Teve ótima educação, voltada para o sacerdócio. Aos 14 anos, começou a viajar pelo mundo, indo parar na Batávia (atual Jacarta), Indonésia, pertencente ao continente asiático. A cidade era o centro administrativo da Companhia Holandesa das Índias Orientais.
Naqueles tempos, a adolescência era bem diferente. Logo que saíam da infância, as pessoas já se tornavam jovens adultos, sem o período intermediário tão marcante de hoje. A responsabilidade era grande, tal como mostra a jornada precoce de João. Foi nessa viagem à Ásia que caiu nas mãos dele um panfleto protestante espanhol, intitulado “Diferenças da Cristandade”. Nele, críticas a doutrinas e conceitos católicos, tais como a utilização de línguas incompreensíveis ao povo nas missas e textos.
Com muita facilidade com línguas e sensibilidade quanto aos seus efeitos, o que João leu no folheto mexeu muito com o rapaz. O efeito foi prático, e não só teórico: o jovem converteu-se à Igreja Reformada daHolanda, que mais tarde deu origem a uma importante denominação protestante naquele país. Começou, imediatamente, a traduzir trechos dos Evangelhos do espanhol para o português.
Projeto ambicioso
Passaram-se 2 anos, e João pôs em prática um grande plano: traduzir o Novo Testamento para o português, a partir da Bíblia Reyna Valera, da Espanha. Também usou como bases as versões latina, francesa e italiana, todas bem recentes na época, traduzidas do grego e do hebraico. Em menos de um ano, o garoto concluiu o projeto (com apenas 16 anos de idade). A tradução não foi propriamente publicada, no sentido tradicional do termo: João fez cópias à mão e enviou a congregações na Malásia, na Batávia e no Ceilão (hoje Sri Lanka).
Na igreja em que ingressara após sua conversão, assumiu ministérios. Primeiramente fazia visitas a doentes. Logo depois, foi alçado a pastor suplente. Em Málaca, na Malásia, tornou-se capelão e diácono. Começou, em contato direto com os fiéis, a ver que a tradução que havia feito soava muito erudita, incompreensível à maioria. Passou a traduzir alguns sermões para um português mais coloquial, embora correto, bem conhecido pelo povo.
A partir de 1656, passou 3 anos fazendo uma revisão total na tradução do Novo Testamento. Ao mesmo tempo, estudava e dava aulas, tornando-se pastor em 1656, seguindo para o Ceilão. Na cidade de Galle, passou ferrenhamente a combater certos preceitos católicos, o que levou o governo a protestar e tentar impedi-lo de pregar em português, o que se repetiu em outras localidades por onde passava a trabalho. NaÍndia, em Goa, chegaram a queimar um retrato de Almeida em praça pública por ordem da Inquisição católica.
Entre idas e vindas, João conheceu e se casou com Lucrécia Valcoa de Lemes. Numa viagem pelo Ceilão, o novo casal passou por um episódio curioso: ambos quase foram mortos por um elefante ensandecido, escapando por pouco. Sobreviveram, obviamente, e tiveram um casal de filhos.
Mais perseguição
Por sua oposição à Igreja Católica, Almeida era perseguido e acusado em algumas comunidades lusófonas de traidor. Foi julgado pela Inquisição em Goa em 1661, considerado herege e senteciado à morte. O governador-geral da Batávia o chamou oficialmente de volta, evitando que a sentença fosse cumprida.

Aos 35 anos, passou a viver na Batávia, onde foi um pastor dos mais ativos. Ao mesmo tempo, retomou o trabalho de tradução da Bíblia, também estudando o holandês e aprofundando-se no grego e no hebraico. Com a tradução do Novo Testamento devidamente finalizada em 1676, começou a luta pela publicação. O presbitério da Reformada Holandesa começou a revisar o texto, mas os trabalhos eram morosos demais.
Após 4 anos, irritado com a enrolação, João mandou por conta própria um manuscrito à Holanda para impressão. Tentaram barrar o processo, mas o livro foi impresso e publicado em 1861, embora com erros de revisão e tradução na transição entre manuscrito e impressão – ao que parece, propositalmente. As autoridades holandesas determinaram a destruição dos exemplares, incluindo os enviados à Batávia, e que uma nova e mais rigorosa revisão fosse feita. Entretanto, nem todos os livros mandados para a Batávia foram destruídos. Alguns foram corrigidos manualmente e enviados a congregações locais.
Enquanto a nova revisão era feita pelas autoridades, Almeida começou a traduzir o Antigo Testamento. Com a saúde abalada, tinha menos obrigações na Igreja e pôde se aplicar mais à conversão do texto ao português. Quando já havia chegado ao livro de Ezequiel, João Ferreira de Almeida faleceu, em 1691. O pastor holandês Jacobus op den Akker continuou o trabalho e o completou em 1694 (foto à esquerda). Após mais alguns ajustes, a Bíblia em português foi impressa na Batávia em dois volumes (em 1748 e 1753).
Durante os séculos 18 e 19, algumas instituições britânicas e norte-americanas financiaram e distribuíram a versão de Almeida em Portugal e algumas cidades do Brasil, amplamente utilizada até hoje por cristãos lusófonos.